“O País das Maravilhas” de Alice Rohrwacher

Não deixa de ser uma feliz coincidência que uma das surpresas que Cannes trouxe na edição do ano passado, O País das Maravilhas (Le Meraviglie no original) estreie em simultâneo com a reposição de obras de Rossellini no circuito comercial português. E é mesmo ao cineasta italiano que parece ir buscar alguns elementos que lhe servem de molde, nomeadamente um olhar complacente sobre uma família desfavorecida, particularmente nas crianças desta, tudo maioritariamente interpretado por actores não profissionais.

Mas não é só desse realismo dorido de que se serve. A obra de Alice Rohrwacher está numa incessante busca pelo metafísico, algo inultrapassável, inalcançável e transparente. Senão, vejamos alguns dos quadros apresentados: um camelo a responder aos assobios da família, abelhas a treparem a cara de uma rapariga, duas irmãs a “beberem” de um raio de luz. Com este elo íntimo com a Natureza, a obra não se torna parte nem de um neo-realismo floreado, nem de um realismo mágico ofendido. Antes um dos primeiros filmes neo-realistas mágicos da história do cinema (e não há aqui nenhuma contradição, de que nos lembramos mesmo é de O Espírito da Colmeia de Víctor Erice, pelas mais diversas razões).

O início do filme (um mistério nunca resolvido), dá-se com um soldado a indicar aos camaradas que viveu ali em tempos. Um movimento de câmara manual (quase todos aqui o são) para um período desconhecido e a intriga aos poucos surge: o lar antes em fora de campo é agora uma habitação com as suas seis ou sete mulheres e um pai autoritário. São camponeses pobres e têm como negócio principal a apicultura. As relações entre eles mudam então quando surge um concurso nacional (homónimo à tradução portuguesa) que procura a família italiana com os melhores produtos de fabrico próprio.

Poder-se-á criticar a presença de Monica Bellucci como apresentadora e do desvio que provoca da atenção da intriga principal. Mas não é só um corpo bonito. A maneira como a sua personagem olha para as filhas da família contém inveja e nostalgia. Um olhar de derrota e infelicidade (é de longe a que se sente mais desenquadrada com o meio onde está inserida e talvez seja essa a intenção). De resto, salienta-se ainda o ênfase atribuído pela dura vida do campo, através das batalhas necessárias e dolorosas contra as sanhas de chuvas e ventos, assim como a dificuldade nos tratamentos das colmeias (de notar que as abelhas são autênticas e era ilegal o seu uso nas filmagens). Por isto e por mais, Alice Rohrwacher assinou uma obra-prima. Resta saber quantas maravilhas mais é capaz de cumprir.

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