“Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” de Alejandro González Iñárritu

“And did you get what you wanted from this life, even so?”
“I did.”
“And what did you want?”
“To call myself beloved, to feel myself beloved on the earth.”

É com estas palavras, inscritas na campa do poeta e escritor Raymond Carver, que o mexicano Alejandro González Iñárritu (Babel, Amor Cão, Biutiful) abre o seu novo filme, “Birdman”. Uma comédia negra sobre um actor (Michael Keaton) que procura afirmar-se como um artista, anos após os seus sucessos de bilheteira como super-herói, Birdman, reinventando-se como um actor e escritor de teatro na Broadway. O palco deste filme são os bastidores do teatro onde Riggan Thomson(Keaton) vai apresentar ao mundo a sua primeira peça baseada numa história de Raymond Carver (“What We Talk About When We Talk About Love”). Um filme sobre o egocentrismo, a evolução de carácter e sobre a capacidade humana de se superar a si própria.

Iñárritu conseguiu um elenco de luxo com Michael Keaton, Edward Norton, Zach Galifianakis, Emma Stone, Naomi Watts, por isso não é com dificuldade que temos um filme com personagens bem interpretadas e absolutamente geniais. Desde os primeiros minutos que vemos um filme com um tom pesado e com um estilo de fotografia muito característico do seu director de fotografia, Emmanuel Lubezki, que juntamente com alguma magia de edição produz um filme em constante movimento (uma representação do filme na cabeça de Riggan Thomson) através de um (falso) plano-sequência contínuo, que percorre os bastidores do teatro e as ruas de Nova Iorque e onde podemos observar o estado de fuga (psicológico) de Riggan, muito preocupado com a sua imagem e com o resultado final da sua peça (irá ser finalmente reconhecido como um artista? Ou continuará a ser conhecido como o homem vestido num fato de pássaro?). Esta técnica não é, de todo, inovadora no cinema, Hitchcock recorreu ao uso de algo semelhante no filme “Rope” (1948) e Sokurov em “Russian Ark” (2002). Mas, ao contrário destes filmes em que a técnica utilizada não é essencial para o efeito dramático do filme, aqui podemos afirmar o contrário, não só realça o estado de continuidade como nos envolve na evolução de Riggan como pessoa e artista. Iñárritu, ao utilizar esta técnica, converte o cinema em teatro, e vice-versa. Podemos ver a alteração no comportamento dos actores quando estão em palco, nos bastidores ou nas ruas de Nova Iorque, apesar de ser tudo dentro do mesmo filme. Este é filmado com a intenção de se observarem comportamentos reais no mundo real e comportamentos modelados em palco. Coloquem uma pessoa num palco é teatro, filmem a performance é cinema, filmem uma pessoa na rua é cinema, tirem a câmara não é teatro, adicionem um espectador torna-se teatro. A beleza destas mudanças é captada majestosamente e os actores apenas reforçam o efeito. Capazes de uma expressão formal, precisão de gesto e um naturalismo moderno compõem um filme sobre actuação teatral onde a linguagem é a do cinema contemporâneo casual.

Para além da beleza da câmara em movimento tem-se uma música de fundo brilhantemente tocada pelo baterista e compositor deste filme, Antonio Sanchez, que ajuda não só a marcar o passo das cenas, mas também para mostrar os vários estados emocionais de Riggan.

Mas nem tudo é perfeito. Por vezes, a maneira que Iñárritu escolheu para contar a história impede os actores de terem liberdade total, pois a câmara foca-se muito na perspectiva de Riggan, inibindo a performance dos actores em cenas conjuntas. Para além disso, aquilo que podia ser algo capaz de explorar a insegurança emocional das personagens fica aquém do esperado, pois Riggan toma a luz da ribalta e, com o tempo acelerado a vez dos outros parece não chegar. Claramente um filme egocêntrico com uma personagem principal egocêntrica.

Com “Birdman”, Iñárritu explora a percepção que temos de nós mesmos, o teatro vs cinema e, acima de tudo, a luta constante que temos por ser alguém e por sermos lembrados. Nomeado para 7 globos de ouro e vencedor de 2 (melhor actor num papel principal na categoria de comédia/musical e de melhor argumento), é certamente um filme que todos devemos ver.

One Response to “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” de Alejandro González Iñárritu

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