“Adeus à Linguagem” de Jean-Luc Godard

Adeus à Linguagem revolve à volta de um casal e das suas discussões. No entanto, o que derradeiramente impressiona no novo filme de Jean-Luc Godard é a “linguagem” a que sempre recorreu, ou seja, a montagem extremamente trabalhada (haverá ou houve, cineasta que sempre a tenha utilizado de forma mais criativa?), o som em formato estéreo bastante amplificado, as frases que vêm e vão, enigmáticas e ao princípio, sem parecer terem qualquer associação e, novidade, o artifício de qual se prova um mestre: o uso do 3D que, muito possivelmente, pela primeira vez deixa de servir como elemento de “entretenimento” para ser “arte”.

Note-se, por exemplo, na nova dimensão que os clássicos de Cocteau e Lang ou mesmo as costas de Miriam Hopkins adquirem quando aparecem numa televisão em segundo plano (talvez excertos não usados no Histoire(s) du Cinéma?), nas cores e imagens vivas, sujeitas a vários filtros, que agora têm a verdadeira oportunidade de sair da tela, na sobreposição de dois planos distintos que poucos segundos depois estarão fundidos num ligeiro movimento de câmara. Ao invés de explosões e monstros, Godard usa este registo para salientar livros, flores, paisagens e corpos despidos. O cinema arthouse é levado para outro nível.

No entanto, não se deve reduzir esta obra aos recursos tecnológicos. O protagonismo a um casal com um matrimónio deteriorado já havia sido atribuído ao centro de uma das suas películas, nomeadamente Numéro Deux, também com uma “linguagem” diferente. Adeus à Linguagem é uma versão melhorada e menos erudita dessa obra, feita no estilo de um dos seus trabalhos anteriores, Filme Socialismo, com o acrescento de um cão cujos pensamentos filosóficos contém os melhores diálogos do filme.

As preocupações políticas do cineasta estão também presentes: a relação do indivíduo com o Estado, a guerra, a (des)igualdade (segundo o filme, alcançada apenas na casa-de-banho), mas, as suas mensagens são muito mais do que isso. Frases como “a vossa felicidade enoja-me” ou “as duas grandes invenções foram o infinito e o zero, o sexo e a morte” apontam a incomunicabilidade e desinteresse social que não seja por esses fatores extremos em que de facto caímos, por maiores que sejam os meios tecnológicos a que recorremos. A futilidade que o nome adquiriu – como é dito “abracadabra, Mao Tse Tsung, Che Guevara” – anteriormente de personalidades marcantes, agora jogos cacófatos. Não há comunicação se pouco ou nada há a dizer. E por isso, há este requiem à Linguagem.

Foi na passada edição de Cannes (donde saiu com o Prémio do Júri ex-aequo com Mamã de Xavier Dolan) que Godard afirmou que este era o seu melhor filme. Não está muito longe disso.

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