Review: Man of Steel – Homem de Aço

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Aviso: esta crítica contém spoilers.

Homem de Aço é um filme frustrante para mim, onde cada boa decisão tomada é prontamente anulada por uma má. Embora a crítica se encontre dividida na opinião final sobre o filme, não falta munição para quem o pretenda atacar.

Começando pelo diálogo, escrito por David S. Goyer, demasiadas vezes atroz e que flagela pelo menos uma linha de cada personagem. Particularmente das femininas como Lois Lane, que vai desde a imatura “Let’s stop measuring our dicks” numa tentativa risível de David Goyer de a estabelecer como mulher forte e decidida ao absolutamente infantil “What if I need to tinkle?”. Enquanto isso, a vilã Faora cita “Death is its own reward” directamente do Bushido (claramente um best-seller em Krypton) quando não está a atirar bombas como “Evolution always wins” para condescender a uma audiência conservadora num filme com tanto simbolismo cristão que bem se podia intitular A Paixão de Kal-El.

Outro problema inegável é a completa falta de consequência nas cenas de ação. Smallville e Metropolis são completamente arrasadas enquanto herói e vilões se esmurram dentro e fora de edifícios em colapso enquanto milhares de pessoas morrem durante a luta. Esta completa despreocupação atinge o ridículo quando o próprio Super-homem se desvia de um camião-cisterna e mantém uma pose cool enquanto este choca contra um edifício atrás dele e o explode, chegando ao ponto de ser engraçada quando, não ficando um único edifício de pé nem alguém vivo para lá de três personagens secundárias no local da destruição da nave Black Zero, uma personagem ainda diz “He saved us”. Não havendo a necessidade de terminar o filme em melodrama ou desolação, convinha mostrar algum interesse da parte do herói em ajudar, reconstruir ou fazer qualquer outra coisa que demonstrasse uma atitude mais heroica que lutar contra um vilão para não morrer.

Finalmente e já no campo da picuinhice técnica, Man of Steel é facilmente o trabalho de realização até hoje mais feito em cima do joelho da carreira de Zack Snyder, que não está minimamente interessado no detalhe da mise-en-scène nem em estabelecer qualquer relação entre cenas com planos de locais. Lois Lane entra num escritório genérico onde se encontra Lawrence Fishburne como Perry White sentado detrás de uma secretária e só porque já conhecemos a história sabemos que estamos na redação do Daily Planet, sem que nada nos seja dito sobre aquele local para o qual não é feita qualquer transição lógica da história.

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Mas o maior problema do filme apontado tanto pelos fãs como por escritores da BD como Mark Waid é outro: pela primeira vez o Super-Homem mata. Ao contrário de Superman II, no qual o herói derrota Zod de forma ambígua e completamente camp, aqui ele parte um pescoço em toda a sua glória explícita e macabra. É compreensível a revolta daqueles que vêm a personagem com os mais altos valores da banda-desenhada ser idiotizada para satisfazer uma audiência que quer ver todo o seu poder desencadeado. Onde eu discordo dos negativistas deste desenvolvimento do filme é na afirmação de que o Super-Homem se tornou alguém capaz de matar porque sim, sem haver uma razão para isso. Existe uma boa razão para o que acontece e não se prende directamente com uma mudança no protagonista, mas sim na sua figura paternal – Jonathan Kent.

O bom Pa Kent desta vez não é assim tão bom. Continua a ser um pai presente, carinhoso e justo, mas todo o apoio e otimismo para com as capacidades extraordinárias do filho desapareceram, substituídos por receio da reação do mundo perante as mesmas. Receio que acaba por depositar em Clark, o qual mesmo após a morte de Jonathan continua a percorrer o mundo na sombra de um pai que despropositadamente o impediu de criar a sua própria identidade, forçado ao papel humano de Clark Kent sem encontrar nem o seu lugar, nem a si mesmo. É por isto que a morte de Zod, ainda que o faça sentir adequadamente repugnado e revoltado consigo próprio, é no fim de contas o acto mais libertador da sua existência. Depois de uma vida a ser espezinhado e a suprimir quem verdadeiramente é dentro de si, Clark pôde finalmente não só mostrar ao mundo quem é, o quão poderoso é e quão longe está disposto a ir para proteger o planeta, mas, mais importante ainda, cometer pela primeira vez um erro com esses mesmos poderes. Como para a criança obrigada ao perfeccionismo por pais rígidos que parte um vaso sem querer, o erro é extremamente catártico, libertando-o do peso constante da pressão de nunca falhar.

Algo semelhante já tinha acontecido no último capitulo da trilogia Batman onde Bruce Wayne, a eterna criança que jurou nunca usar uma arma depois de ver os seus pais serem assassinados com uma, acaba por causar com disparos a morte de Talia al Ghul. A sua culpa de sobrevivente e as normas e regras que se obrigou infantilmente a cumprir, como um miúdo que vê o pais discutir e promete a si mesmo nunca o fazer, caíram finalmente por terra, deixando o prazer de viver e a capacidade de amar e ser amado regressar à sua vida. O mesmo acontece com Kal-El, que apenas na última cena do filme se mostra sorridente enquanto Clark pela primeira vez porque pode finalmente optar por ser ele e viver uma vida normal, em vez de se manter na obrigação de se esconder como humano.

2

Por detrás do impressionante e entorpecedor espetáculo emocionalmente vazio de destruição, Homem de Aço tem um pouco mais de profundidade a oferecer ao espectador, embora infelizmente sejam raras as vezes que o faz. Colmata parte dos seus falhanços com um vilão decentemente concretizado com fins compreensíveis, uma excelente dinâmica entre Russel Crowe e Michael Shannon e um trabalho minimal mas fantástico da parte de Costner e Diane Lane, mas não deixa de ser o desperdício de uma enorme oportunidade de fazer algo bem mais grandioso.

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