Review: O Grande Gatsby

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Em meados da década de 90, Baz Luhrmann fez o espectador entender que adora os clássicos, mas adora-os à sua própria maneira. Em Romeo+Juliet, adaptou a peça de Shakespeare só na medida em que lhe permitiria fazê-la diferente em todos os outros sentidos, com a tragédia a soar a Radiohead e Garbage. N’O Grande Gatsby, o realizador emprega um truque semelhante com o obra de F. Scott Fitzgerald. Luhrmann usa a perspetiva da primeira pessoa do autor e conduz a história do narrador, Nick Carraway (Maguire), que descreve a história da sua breve convivência com Jay Gatsby (DiCaprio) enquanto é tratado de alcoolismo num asilo, de onde relata as suas memórias desse passado recente como meio de terapia. Juntamente com o narrador, viajamos até à América em 1922 – a era do jazz, da lei Seca, do dinheiro fácil e, consequentemente, da festa. Após mudar-se para Nova Iorque para perseguir o seu sonho, o jovem e pobre Nick arranja uma modesta casa em Long Island e faz amizade com o vizinho, o enigmático Gatsby , que organiza festas para centenas de convidados de toda a cidade, mas que poucos deles conhecem pessoalmente. Ao mesmo tempo, Carraway volta a encontrar a sua prima Daisy (Mulligan), que junto ao seu marido, o aristocrata Tom Buchanan (Joel Edgerton), vive na margem do estuário oposta à de Nick e de Gatsby. Embora pareça ser mero acaso que estas três pessoas – a nova rica, o herdeiro e o pobre – se tenham encontrado desta maneira, Nick eventualmente descobre que Daisy e Gatsby têm um passado comum e torna-se no observador e mediador da relação entre os dois, enquanto ambos tentam em vão recuperar os anos perdidos que passaram separados.

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Este é desde o primeiro segundo um filme com a marca distinta de Luhrmann, de forma particularmente óbvia durante a primeira aparição de Gatsby, a qual o realizador apresenta com pompa teatral na atmosfera de antecipação enquanto mostra uma mão com um anel e depois a parte de trás da sua cabeça ao som do murmúrio da festa antes de finalmente permitir ao herói sorrir para a câmara. Fato impecável e elegância romântica escondem um estatuto social adquirido ilegalmente, numa faceta que esconde um miúdo assustado, esperançoso e sonhador que ainda acredita num final feliz. Da mesma forma, os trajes de penas, carros amarelos e o deslumbrante 3D são nada mais do que uma dissimulação do drama maior oculto por detrás de toda a riqueza e diversão. O âmbito desta celebração perversa da vida encaixa-se perfeitamente na opinião de Fitzgerald sobre a época histórica da América na véspera da Grande Depressão, sobre a juventude despreocupada a festejar alheia ao sofrimento dos outros enquanto os quebra como brinquedos. Mas, em vez do jazz tomar o esperado centro do palco, as personagens dançam ao som de misturas de Gershwin e Beyoncé e conduzem a ouvir hip hop. Sentir o espírito daqueles tempos torna-se assim mais simples, em vez de mostrar o que era a música popular na época de Fitzgerald, o realizador deixa-nos cativar pela música que hoje nos faz vibrar da mesma maneira para nos colocar no mesmo estado de espírito festivo. Obviamente, Baz não está muito interessado em subtileza: quando toda a audiência já percebeu o significado de um farol de luz verde, ele é novamente explicado e, só para se ter a certeza, Florence Welch ainda canta “I can see the green light, I can see it in your eyes”. Ainda assim, pequenos momentos perspicazes de diálogo como a menção do aniversário de Nick são mantidos para garantir a presença da discreta reflexão social por trás de todo o drama.

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Tobey Maguire faz um esforço para estar à altura do que lhe é pedido e a imagem que cria de Nick enquanto tipo honesto e amigo leal não deixa a desejar, enquanto narrador por outro lado a coisa não corre tão bem. A inconsistência com que recorda os dias com Gatsby e companhia ora com desdém, ora repentinamente com admiração infantil sempre com a insegurança adolescente na voz que não larga desde o início de carreira tornam-no no elemento mais fraco do elenco. Leonardo DiCaprio é incrível, não que alguém duvidasse de que é um ótimo ator, mas aqui tem a oportunidade de mostrar novamente todo o seu potencial cómico, trágico e romântico, tudo de uma vez. Carey Mulligan sabe bem como transmitir o trauma interno de uma jovem mulher e fá-lo bem enquanto menina bem frívola, habilmente disfarçada como flor delicada, mas ainda sendo capaz de comover. No entanto, se por um lado temos um Gatsby como um tipo controverso e versátil de génio louco, a personagem de Mulligan nunca se concretiza completamente como uma típica representante da juventude dourada, destruidora descuidada do destino de outra pessoa, acabando por ser vista apenas como uma vítima patética dividida entre dois homens. E a paixão entre Daisy e Gatsby parece muitas vezes artificial, como se nenhuma faísca de fogo de artifício pudesse acender a sua chama, mas não é essa a questão? Não estão, cada um à sua maneira, a forçar a existência desta relação? Gatsby vê o romance com Daisy e só Daisy como um elemento essencial da visão grandiosa que tem para a sua vida, recusando-se a ver qualquer imperfeição, problema ou obstáculo, recusando-se a vê-la tal como é, enquanto Daisy encontra nele a possibilidade de ser objeto de devoção que um marido adúltero lhe nega, alimentando inconscientemente o sonho dele sem nunca estar realmente disposta a entregar-se por completo.

Luhrmann fez um filme que não é tanto sobre o amor, mas sobre a obsessão em todas as esferas da vida. A obsessão por dinheiro e propriedade e a obsessão e sonho pelo amor. Gatsby queria desesperadamente ser amado. Construiu um império assente sobre o sentimento que por uma única vez pôde sentir por Daisy e ninguém pode descobrir se era amor verdadeiro ou uma imagem perfeita criada na sua cabeça. O Grande Gatsby é uma história sobre fixação, esperança e deceção, um retrato detalhado, conciso e preciso de uma era interessante e um filme recomendável.

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