Review: To The Wonder – A Essência do Amor

banner

De todos os 22 temas do duplo épico onirológico ‘Hurry Up, We’re Dreaming‘ de M83, a música com que mais implico é o hino à inocência infantil ‘Raconte-Moi Une Histoire‘. Por cima de um ritmo simples e repetitivo, uma criança narra os efeitos de um sapo alucinogénico e como este podia fazer com que todo o mundo se unisse em brincadeira amigável. Enquanto a mensagem subjacente que se está a passar é boa, há muito pouco a tirar da própria experiência, desde a música pouco memorável ao monólogo redigido que carece de espontaneidade. A sua falta de propósito como forma de entretenimento torna-o instantaneamente um tema descartável. A nova obra de Terrence Malick sofre de problemas semelhantes. O filme é extremamente efémero na estrutura, o enredo é um puzzle desfeito com muitas das peças perdidas, a motivação e os sentimentos das personagens são indistintos e nunca é completamente clara a parábola tecida, como se estivéssemos a ver apenas o rascunho de um filme constantemente decidido a mudar. Mas a parábola está lá e o seu significado acaba por vir, lenta e dificilmente, ao de cima. Onde forma e conteúdo estavam intimamente relacionados n’A Árvore da Vida, aqui Malick foca-se praticamente apenas na imagem, fortemente narrada por rezas e juras de amor, para levantar questões existenciais, usando a beleza da natureza para apresentar a vaguidão e turbidez da sua história. Menos abrangente e com menos camadas de significado do que o seu ultimo filme, To The Wonder concentra-se simplesmente no amor. O amor entre um homem e uma mulher e o amor de Deus, o amor enquanto sentimento e emoção que toca todos os seres vivos. Primeiro, Malick mostra a sua visão do relacionamento entre Affleck e Kurylenko, nesta existência e ambiente natural como própria personificação do amor puro, inocente e impotente, sem impor demasiado as suas próprias crenças. Depois o amor divino, revelado através da personagem de Javier Bardem, um padre que dedica a sua vida aos paroquianos e aos seus problemas, mas perde-se nos pedidos e exigências da sua alma. Num contexto em que a natureza aparece como a personificação do amor de Deus para com o homem, Malick tenta fazer com que o espectador veja apenas a beleza, os vícios menores, a sensibilidade humana e a sua capacidade de perdoar.

still

Mais que comparar, Malick iguala fé e amor, num esforço louvável de nos forçar a entender todas as implicações de tal conceito. A frustração de um crente que nunca vê as suas preces ouvidas por Deus é comparada ao sofrimento de uma amante que não consegue alcançar a atenção, o afecto e o amor do seu parceiro. Exemplificada por uma peregrinação de apaixonados à abadia do Monte Saint-Michel, Malick tenta fazer um filme sobre a aproximação ao maravilhoso, descrevendo o amor entre duas pessoas como um milagre tão único como abrir o Mar Vermelho, mas os monólogos em reza de Bardem são feitos sem entusiasmo e sempre demasiado abstractos, aparentemente falsos e quase risíveis, tal como o comportamento e intensidade sentimental de Marina chegam a ser absurdos. Minimal em diálogo, todos os sentimentos e emoções são transmitidos somente através dos movimentos ou de narração. Os actores limitam-se a ser peças no tabuleiro do realizador, criando situações mas raramente desempenhando um papel significativo nelas. Gestos, olhares e mudanças na beleza infinitamente tediosa da natureza circundante definem as interacções entre personagens. O filme é também nostalgicamente autobiográfico, a história de amor de Neil e Marina tem uma base real no casamento de Terrence com a francesa Michele Morette. Talvez por isso o filme tenha uma forma tão experimental, um enredo tão fragmentado de momentos da privacidade muitas vezes caótica das principais personagens. Tanto como uma reflexão, A Essência do Amor é uma recordação de uma das peças da vida de Malick que em grande parte consiste em cenas obscuras e erráticas da vida das personagens de Kurylenko e Bardem, a memória das quais parece dissolver-se no meio dos vastos campos outonais do Oklahoma. To The Wonder talvez seja uma obra que apenas o próprio realizador possa apreciar plenamente, no entanto é um filme no qual cada um de nós se pode, de uma forma ou outra, rever nas dificuldades de alguma personagem e reconhecer as manifestações de amor, alienação, solidão, esperança e fé que demonstramos ao longo da vida. Falta-lhe coerência, clareza e profundidade, propósito e resolução, só não lhe falta paixão. Não chega, mas é apreciada.

One Response to Review: To The Wonder – A Essência do Amor

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

You can add images to your comment by clicking here.