PROMETHEUS: O QUE IMPORTA SÃO AS PERGUNTAS (Porque as Respostas Não Existem)

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A acreditar no muito que se tem comentado sobre Prometheus, o fenómeno sci-fi do ano, estamos certamente perante um filme marcante, um filme que expande os horizontes do género, um 2001 redivivo. Os fãs, incluindo muita gente perfeitamente respeitável, juram que é uma obra inteligente, madura, anti-Hollywood. O “cinema de ideias” que o espectador sofisticado deve saber apreciar. Você não é um espectador sofisticado? Bem, bem…

Eu tive o cuidado de não fazer coro com aqueles que previam um filme estupendo. E foi fácil evitar grandes expectativas, devo dizer, uma vez que o guionista, Damon Lindelof, é um dos trambiqueiros responsáveis por LOST, essa novela das 7 disfarçada de série de culto. Lindelof e o seu comparsa, esqueci-me do nome, passaram sete anos a afirmar que LOST tinha um fio condutor claro, que tudo faria sentido no fim, e que não era, como se veio a comprovar, uma salada de ideias desconexas temperada com referências a mitologias cabalísticas e passagens bíblicas para ocultar a falta de conteúdo interessante. Sem esquecer aquele elenco de personagens que deveriam estar sob proteção máxima num hospício. No fundo, Lindelof, que não tem uma ideia original na cabeça, é um con artist, um embusteiro que ganha a confiança das vítimas (o espectador) fazendo de conta que é uma coisa que não é (um autor) e que está na posse de coisas que não tem (ideias), com o objectivo de lhes extorquir valores (o dinheiro do bilhete); a ilusão é mantida à custa de alguma pesquisa ad hoc e uma boa dose improvisação. Não era à-toa que várias personagens naquela série televisiva exerciam essa actividade, se bem se lembram.

Portanto, fui ver Prometheus com cautelas, mas, juro, muito boa vontade. Queria uma surpresa. Se preferisse torturar-me ficava em casa; ainda tenho o DVD de uma temporada do LOST. Além disso o imbróglio de teasers e campanhas virais apontava, parecia certo, para uma história com potencial. Vivemos em época de vacas magras, e aqueles mais impacientes por ver um bom sci-fi sem ter de recorrer ao leitor de DVD deixaram-se levar na conversa. Ledo engano.

Depois da cacofonia de reacções das últimas semanas, não sobra muito a dizer sobre o filme. As inconsistências, incoerências e incompetências do guião estão amplamente documentadas. As teorias, que não faltam, como em LOST, foram analisadas até ao quark. Eu não queria repeti-las. Mas tropecei numa série de entrevistas aos cineastas responsáveis por essa bodega que espelham o desleixo mental da empreitada, e acho pertinente compartilhar.

Os textos que cito, e comento, contém passagens de várias fontes, sobretudo desta. Entre as sumidades interpeladas contamos: Damon Lindelof, o charlatão que escreveu o guião, Ridley Scott, o has-been desinspirado que dirigiu a película, e aquele sósia do Tom Hardy, que interpretou um dos débeis mentais da história.

Adiante.

(Here be Spoilers, etc.)

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Qual foi a motivação de David para “infectar” Holloway com aquela gosma escura?

Damon Lindelof: Eu diria que a resposta curta é: ele foi programado assim.

Eu sabia que ele diria isso. Não poderia ter dado uma resposta mais preguiçosa.

O corolário é “personagem X agiu de tal forma porque está na natureza dela”. E assim se justifica qualquer estopada do guião.

Damon Lindelof: Na cena anterior a essa, ele está falando com Weyland (apesar de não sabermos disso no momento) e está dizendo a Weyland que isso é uma perda de tempo. Que eles não encontraram nada na missão além do líquido nos recipientes. E Weyland supostamente diz a ele, “Bem, o que tem nos recipientes?” E David responde, “Eu não tenho certeza, nós temos que fazer alguns experimentos.” E Weyland supostamente diz, “O que aconteceria se você colocasse em uma pessoa?” E David responde “Eu não sei, irei descobrir.” Ele não sabe que está envenenando Holloway, ele pergunta ao cientista, “O que você estaria disposto a fazer para conseguir as respostas para suas perguntas?” Holloway responde “Qualquer coisa.”

E claro que o “plano” podia correr mal de mil maneiras diferentes. Holloway podia transformar-se num monstro homicida, por exemplo, e matar a tripulação inteira. Mas o Weyland tanto quer viver para sempre que está disposto a arriscar a própria vida. Faz sentido…

Logan Marshall-Green [O ator que interpretou Holloway]: Minha definição de um robô, ou pelo menos um robô auto-sustentável, é algo que está lá para coletar informações.

Não, um robô é uma máquina que faz algum trabalho que humanos não podem ou não querem fazer. A sua definição está errada.

Logan Marshall-Green A única maneira que ele pode usar para crescer é usar esses dados para se desenvolver. Você viu o David coletando dados instantaneamente. Eu acho que provavelmente ele chegou num beco sem saída (por assim dizer) com esta missão.

Ele é um simulador de um ser humano, certo? As pessoas deixam de funcionar se não aprenderem alguma coisa regularmente? Muitas reagem violentamente quando têm de aprender.

Logan Marshall-Green: Isso é algo que eu queria acrescentar e realmente gostei. Michael e eu nos divertimos muito com isso. É algo que eu não tenho visto em ficção científica, que é uma sensação de racismo ou intolerância com androides ou vidas sintéticas.

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A-hem…

David estava assistindo repetidamente Lawrence da Arábia enquanto a tripulação do Prometheus estava em hibernação por dois anos, por que esse filme?


Lindelof: Ridley e eu começamos a conversar sobre Lawrence da Arábia por algum motivo, bem no começo do processo. Eu sou um grande fã de David Lean – nós estávamos falando sobre A Ponte do Rio Kwai e Peter O’Toole etc, etc, então nós começamos a falar sobre como seria se David fosse obcecado com Lawrence da Arábia? E por que ele seria obcecado por Lawrence da Arábia? E eu acho que a resposta curta é: Lawrence é um estranho em uma terra estranha. Um homem branco, que é totalmente diferente, se torna a figura central do filme, independente de suas diferenças. Isso parecia levemente analógico ao que queríamos fazer com David.

A analogia foi subtil como um rinoceronte num ringue de patinagem artística, mas obrigado na mesma.

Qual o motivo da obsessão de Lindelof por homens ricos e velhos que destroem a vida dos filhos?

Lindelof: Bem, eu tenho que dizer que eu não tive nenhuma experiência com homens ricos que arruinaram minha vida. Alguns homens menos ricos foram exemplos maravilhosos. Mas eu acho que o personagem clássico “homem velho e rico com uma intenção nefasta” é um personagem clássico tanto na ficção científica quanto em outros gêneros. E é bom demais para conseguir resistir.

“Personagem clássico” é um eufemismo interessante para “cliché”.

O “magnata maquiavélico” é um lugar-comum certamente irresistível – para os guionistas sem talento.

Nós também vimos Lindelof abordar o tema parto antes, especificamente em mulheres perdendo a capacidade de ter filhos ou tendo-os de uma maneira meio deturpada em Lost. Por que foi importante entrar no tema de gravidez humana em Prometheus?

Lindelof: Eu acho que a ideia de fertilidade já estava ligada ao Alien original. Esta ideia de, por falta de maneira melhor pra explicar, de um espermatozoide e um óvulo precisar um do outro para formar uma nova vida. E nesta metáfora gestacional, o ser humano é o óvulo e o esperma é representado (no Alien original) por um facehugger.

Você é incapaz de conter o seu fervor por esclarecer o muito óbvio. Natural, já que nunca consegue explicar aquilo que não o é.

Contudo, o “facehugger” estuprava literalmente os hospedeiros. Você garante que a intenção disso era elaborar uma metáfora sobre “fertilidade”? Eu não sei ao certo qual o objetivo de toda aquela simbologia sexual no primeiro Alien. Provavelmente é só resultado das viagens de ácido do artista, H. R. Giger. (Este sujeito.) As pessoas estipularam todo o tipo de teses freudianas, mas eu acho que o monstro é assustador independentemente disso, e pronto. No fundo, queria-se ter uma atmosfera de terror, não alguma tralha pseudo-intelectual.

E independente de ter sido bem sucedido ou um fracasso, com certeza foi divertido escrever.

“E eles estão a pagar-me por isto, ih ih ih…”

Eles realmente fizeram uma motivação para os Engenheiros, ou supostamente é para continuar ambíguo? Eles serão um mistério para sempre, ou nós poderemos entendê-los se prestarmos bastante atenção? Foi intencional ou eles acharam que ofereceram dicas suficientes para o telespectador dedicado, onde nunca saberemos com certeza o que os alienígenas queriam?

Lindelof: Ridley definitivamente tinha respostas muito específicas para estas questões e nós conversamos muito sobre como queríamos colocar estas respostas em Prometheus. E se queríamos ou não contá-las. É meio ofensivo dizer “bem, se você gostou desse filme, nós iremos dar o que você quer na sequência dele.”

Não, ofensivo é prometer que há soluções concretas para os mistérios quando elas não existem. Convidar as pessoas a embrenhar-se num labirinto sem saída. Tipo o que você fez por sete anos com LOST. Mas se a fórmula resultou aí, porque não repeti-la?

O filme faz a pergunta, nós fomos criados por estes seres? E responde essa pergunta com clareza.

Não, o filme mostra isso. Se um filme abre com um homem a dar um tiro noutra pessoa, eu não me pergunto “será que esse homem deu um tiro nesta pessoa?”, porque não sou completamente retardado. Digo-lhe candidamente, a audiência não é retardada. Tente imaginar essa possibilidade.

Mas foi uma tentativa habilidosa de fazer parecer que o seu filme apresentou solução para algum mistério.

Mas ao desenvolver esta resposta, surge uma nova pergunta, que é, se eles nos criaram, por que mudaram de ideia? Esta é a pergunta que Shaw está pedindo no final do filme, aquela que ela quer que seja respondida.

E a resposta fica para a $$$equela, claro. Dá tempo para você pensar numa.

Eu acho que existe várias pistas neste filme que deixamos para você adivinhar o motivo. Mas não o suficiente para prejudicar o que Shaw pode descobrir quando ela for conversar por si mesma com as criaturas.

Ou seja, você deu algumas pistas, mas não o suficiente para ficar comprometido com uma solução específica. Espertalhão.

Prometheus é anti-ciência?

Lindelof: Eu definitivamente sou pró-ciência, mas acredito que o filme promove a ideia como: Os dois podem viver lado-a-lado em harmonia? É possível ser um cientista e manter a fé no desconhecido? E você é recompensado por ter fé cega?

Se você quiser que a personagem seja, com certeza.

Claro que nesse contexto a “fé cega”, passe o pleonasmo, não é nada mais que uma maneira de justificar os comportamentos juvenis do seu dramatis personae. Tais como o “Dr.” Holloway remover o capacete numa atmosfera provavelmente hostil porque “acredita que pode” ou a decisão da “Dr.” Shaw, no fim do filme, de visitar um planeta habitado por criaturas que a querem assassinar brutalmente. Haja fé.

Lindelof: Eu acho que o filme está fazendo um meta-comentário ao mostrar que Shaw é a única com fé a bordo, e ela é a única que sobrevive. Então o que estamos tentando dizer com isso?

Que você decidiu que essa personagem ia sobreviver e as outras iam morrer. Parabéns, você é deus.

Mas obrigado por deixar explicito que você não tem uma ideia clara sobre o significado do material que escreveu. Está a misturar espiritualismos de algibeira com pseudo-ciência e esperando que alguns jumentos iletrados achem isso profundo.

Os engenheiros queriam que nós fôssemos visita-los?

Lindelof: Esta é uma excelente pergunta e uma que não irei responder.

Coerente.

Lindelof: Mas eu direi que há algo fascinando sobre a humanidade em perceber isso como um convite. Você olha para uma parede de uma caverna, há alguém apontando para alguns planetas distantes, e uma interpretação é “Foi dali que nós viemos” e outra é “Nós queremos que você venha para cá”.

Na realidade há inúmeras interpretações possíveis. “Isso foi quando os Neandertais descobriram o Sol”, por exemplo.

Só os seus pretensos arqueólogos/antropólogos/zoólogos é que ficaram convencidos que aquele pictograma primitivo era um mapa estelar.

Lindelof: E se algo aconteceu entre quando essas pinturas foram feitas – milhares de anos atrás – e a nossa chegada agora, em 2093, 2000 anos depois de essas coisas terem morrido. Aconteceu alguma coisa no período intermediário que nós deveríamos estar levando em conta?

Por favor, já toda a gente sabe que Jesus era um dos Engenheiros na sua história, quem não uniu os pontos durante o filme leu nos blogs depois, pare de agir como se isso fosse um mistério. Ou como se fosse um mistério interessante. Ou, pior, como se você tencionasse manter essa interpretação nos próximos filmes. É óbvio que isso é só um brinde para os geeks que deliram a ler nas entrelinhas e se babam morbidamente com a abundância de “teorias”. Quando tiver de apresentar respostas concretas, vai arranjar algo mais palatável para as massas.

O que é que a substância negra faz ao certo?

Lindelof: Acho que uma das coisas que eu curto nos filmes do Ridley, e adorei muito antes de trabalhar com ele – e é muito surreal estar por dentro – é que 30 anos depois do Blade Runner ainda estamos a discutir se o Deckard é um robô. Tem uma parte especulativa, e a pergunta virou: “o que faz a substância negra?”

Blade Runner deixava-nos com um (1) mistério. No seu filme, quase tudo é uma interrogação. Uma interrogação, uma incongruência ou um buraco no argumento.

O que é que a substância negra faz ao certo?

Lindelof: O filme mostra o que a substância faz em certas circunstâncias. Ora, isto é o que acontece em minhocas; isto é o que acontece se a atirar na tua cara; isto é o que faz se puser uma gota na tua bebida

Uma cobra mutante. Um zombie. Uma gravidez miraculosa. A origem da vida. Vocês fizeram a pergunta errada. Eu quero saber o que a substância negra não faz.

Lindelof: Todas as naves estão a abarrotar com esta coisa, e estão encaminhadas para a Terra. O objectivo era eliminar-nos, evoluir-nos, ou outra coisa completamente diferente?

Algo me diz que você não tem a menor ideia.

Quando David se comunica com um dos Engenheiros no final do filme, o que raio ele diz que o deixa tão furioso? Você realmente escreveu como seria esse diálogo em nossa língua?

Lindelof: Sim. O diálogo de David com o Engenheiro tem uma tradução em inglês, mas Ridley tinha uma intenção muito clara de não adicionar legendas para isso. Eu falei bastante sobre isso nos meus comentários do DVD.

Para poder justificar um “Director’s Cut”, aposto. Quantos é que ele tem planeados para Prometheus?

Falando no diabo:

Ridley Scott: O meu trabalho é encher a sala. Se eu separasse as ideias de comércio e arte seria tolo. Não seria capaz de fazer os filmes que faço. Sou muito flexível aos olhos dos estúdios. De certa forma, sou um homem de negócios. Tenho noção que é esse o meu trabalho. Dizer “Que se lixe a audiência” não é possível. “Estou a comunicar”, essa é que é a pergunta. Estou a comunicar com a audiência? Porque se não estiver, preciso de resolver isso.

Por outras palavras, não quer que o espectador fique entregue a si mesmo porque receia que ele seja burro demais para entender.

O planeta no prólogo é a Terra?

Ridley Scott: Não precisava ser. Aquilo pode ser em qualquer lugar. Aquele pode ser um planeta qualquer. Tudo que ele está fazendo é agindo como um jardineiro espacial. E as formas de vida criadas, na verdade, são a desintegração dele mesmo.

Diga lá outra vez que esse filme é pró-ciência. Sem rir.

Mas o prólogo foi a ponta do icebergue. A história abunda em exemplos flagrantes da absoluta falta de entendimento que os autores deste script têm em relação a tudo que envolva estudo científico. Eu sei que tinha dito que não iria repetir estas coisas, mas é, hum, irresistível:

  • Quando a equipa se está a preparar para explorar o edifício que descobriram naquela lua, Shaw afirma “Isto é uma expedição científica. Nada de armas.” Sim, se forem atacados por uma criatura sedenta de sangue podem tentar dar-lhe porrada com a bússola digital.

  • Alguém pergunta ao robô, David, porque é que ele usa um capacete na expedição, uma vez que não respira. É o pretexto para uma das várias arengas do filme sobre os robôs (ou pessoas sintéticas, no politicamente correcto do Futuro) não terem alma. (Ninguém se cansa de azucriná-lo com a ideia de que não pode ser completamente humano porque foi inventado por eles, embora façam parte de uma missão que tenciona provar que os humanos foram criados por uma espécie diferente.) Bom, os robôs podem não ter uma “alma”, mas podem carregar germes. O uso do fato não visa apenas a protecção da equipa, mas do ambiente que vão estudar. Eles não estão à espera de encontrar alguma forma de civilização? Estes “antropólogos” não sabem o que aconteceu aos povos ameríndios?

  • Contudo, germes não são obviamente uma preocupação dos nossos intrépidos exploradores, que, para deleite dos batalhões de bactéria e fungi que se resguardam na cara deles, dispensam imediatamente os capacetes. (“Não sejam cépticos”, sim, incréus patéticos, querem comportar-se como cientistas numa expedição científica?) E não é que o filme ignore os potenciais resultados deste comportamento suicida. Pouco depois, entram em pânico quando informação valiosíssima sobre uma cultura extraterrestre, i.e. a maior descoberta da História, é rapidamente arruinada por fungos que eles introduziram. E quando o “Dr.” Holloway aparece com uma febre misteriosa, eles assumem, angustiados, que foi contagiado pela atmosfera alienígena. So it goes.

  • David, génio multiusos e Peter O’Toole wannabe, tem na sua posse uma substância desconhecida. Como proceder? Observá-la ao microscópio? Testá-la numa amostra de tecido animal? Colocá-la numa caixa de Petri com um meio de cultura adequado e ver o que acontece? Ou introduzi-la num desafortunado sujeito-teste, sem considerar variáveis e nem se importando de monitorizar os resultados? (O sujeito-teste não é muito cooperativo, pois embora note tem que tentáculos repugnantes a dardejar-lhe dos olhos insiste em tomar parte numa expedição de salvamento.)

  • Protocolo de missão nº 53: caso contraia uma infecção autóctone, não busque tratamento. Requeira ao líder da missão que o incendeie como uma picanha humana. Implore com entusiasmo, como alguém animado com uma intensa vontade de falecer.

  • Partimos do princípio de que os cientistas desta expedição multi-milionária foram escolhidos a dedo. Todavia, o biólogo da equipa perde a cabeça quando encontra um cadáver alienígena, ou, por outras palavras, a descoberta que o tornaria o pai fundador da Astrobiologia. Ele abala do local com o geólogo, que, tendo o sítio perfeitamente mapeado, fica perdido. Quando o radar detecta uma forma de vida, o nosso biólogo de elite fica novamente aterrorizado. Eventualmente eles dão de caras com um ser vivo, mas desta vez, embora a criatura tenha a forma de uma píton e adopte uma posição que qualquer mamífero reconhece como um “fuck off, immediately”, o biólogo acha que o procedimento adequado é pôr um riso idiota na cara e afagá-la carinhosamente.

  • Quando a “Dr.” Shaw e a “Dr.” Lysa Tully revelam a cabeça do Engenheiro, o primeira coisa que decidem fazer é tentar reanimá-lo com uma injecção de volts, como se a Biologia não tivesse progredido desde 1820. Aparentemente, no futuro, os manuais de Anatomia e Histologia serão substituídos pelos livros do Lovecraft.

  • Etc. Etc. Etc.

Porque é que os Engenheiros querem destruir os humanos?

Ridley Scott: Deus não nos odeia. Mas Deus poderia ficar desapontado connosco – como crianças.

E quando um pai fica desiludido com o filho de oito anos é costume espancá-lo com a cabeça decapitada do Michael Fassbender.

Ridley Scott: Eu desespero. É uma palavra forte, mas abrindo um jornal todos os dias, como é possível não ficar desesperado com o que acontece no mundo, como somos representados enquanto seres humanos. A desilusão e corrupção são exasperantes a todos os níveis. A maior fonte de mal é a, claro, a religião.

Fica mesmo desesperado? Urra, esbraceja, fica melancólico? Derrama o café com leite na toalha da mesa, simbolizando as lágrimas que verte pelos males do mundo?

Mas estou confuso. Se você acha mesmo que a religião é um grande problema, porque realizou um filme em que o cepticismo é tratado com total desprezo?

Você joga religião e espiritualidade na equação de Prometheus, apesar disso, elas praticamente funcionam como uma granada de mão. Nós ouvimos que chegou ao script que os Engenheiros estavam planejando destruir nosso planeta porque nós crucificamos um dos representantes deles, e que Jesus Cristo poderia ser um alienígena. Isso foi realmente cogitado?

Ridley Scott: Nós realmente cogitamos, mas depois achamos que isso seria preciso demais. Mas se você considerar isso como um cenário “nossos filhos estão sendo mal comportados lá embaixo”, existem momentos onde parece que nós saímos do controle, correndo por aí com armaduras e saiotes, o que é claro, seria o Império Romano. E foi pensado em longo prazo. Mil anos antes da sua desintegração realmente acontecer. E você pode dizer que eles tentaram “Ei, vamos mandar mais um de nossos emissários para ver se ele pode detê-los. E adivinha só, eles o crucificaram.

Deixe-me ver se entendo, o plano dos Engenheiros era largar o seu representante no meio de uma província limítrofe, rural, e esperar que ele convencesse a aristocracia em Roma a abandonar a sua vida confortável em prol… de quê, exactamente? Preciso apontar os problemas de ordem logística, geográfica, social e mental envolvidos nesse trâmite?

Além disso, Jesus, alienígena ou não, nasceu no Império Romano, durante a Pax Augusta; nunca se vivera tão prosperamente em lugar algum até àquele momento, e num ambiente comparativamente pacífico. Isso era estar “fora de controlo”? Os Engenheiros acharam que os Cro-Magnon viviam mais dignamente? Você acha, Mr.Scott?

Nem falo da parte das divagações sobre “plano a longo prazo de mil anos”. É óbvio que esse tipo nunca abriu um livro de História na vida. Só na escola, a contra-gosto, e achou chato.

Mas eu estou mais interessado noutra questão: será que Prometheus é uma prequela, um remake, um reboot, um spin-off ou um cross-over? Ou tudo isso ao mesmo tempo? Ou podemos escolher?

Como queria que fosse o aspecto da tecnologia neste filme? Porque parece claro que quer ser um parente de Alien, mas eles estão a usar tecnologia muito mais avançada que nesse filme.

Ridley Scott: Sim, mas não havia nada a fazer em relação a isso, porque eu não sabia, pois não? Oficialmente, é uma prequela, mas tomamos muitas liberdades.

Lindelof: O objectivo final de Prometheus… normalmente prequelas, ou filmes que precedem o original, fecham o universo criado – agora sabemos tudo o que era preciso sobre Anakin Skywalker – queriamos que Prometheus abrisse esse universo, por isso não é uma prequela. Tem duas crianças, uma delas vai crescer e tornar-se no Alien, a outra vai crescer e tornar-se numa série de filmes completamente diferente, espero.

É uma prequela. Não é uma prequela. É uma espécie de prequela. O guionista acha que não. O realizador não sabe.

É um exercício interessante analisar este tipo de guiões com os olhos dum arqueólogo. Como eles passam por tantas mãos diferentes, cada autor alterando um pouco o trabalho de quem o precedeu, é possível discernir vários estratos de informação em que encontramos o esboço de guiões anteriores. Com uns toques de picareta rapidamente descobrimos o tal “objectivo final” de Prometheus. Consideremos a parte em que David conspira para engravidar a Dr. Shaw com aquele cefalópode perturbado. No filme, rigorosamente nada em relação a esse plano faz sentido. Como é que ele poderia saber que a matéria negra teria esse efeito? Como é que ele poderia ter a certeza que Holloway e Elizabeth iriam ter relações precisamente naquele dia? Mesmo que ele tivesse visto o resultado disto tudo numa bola de cristal, como é que isso ajudaria o patrão a conseguir a imortalidade que cobiçava? E reparem como esse plotline não vai a lado nenhum: depois da “cesariana”, a gravidez relâmpago da Shaw e o Pokémon que ela deu à luz não influenciam os acontecimentos de forma nenhuma, tão pouco são directamente mencionados. (Excepto no final do filme, o que também só serve para encaixar atabalhoadamente outra referência a Alien).

No entanto, tudo fica claro se aceitarmos que numa versão primordial do guião, no Paleolítico desta produção, o objectivo do robô era o mesmo que o do andróide de Ian Holm em Alien e o corporate asshole de Aliens – arranjar um espécime vivo da criatura e trazê-lo para a Terra. Em versões ulteriores o foco da história de Prometheus foi mudando, passou de uma mero remake do original para algo mais ambicioso, mas continuamos com vários destes orgãos vestigiais: a nave extraterrestre, a colónia de ovos (trocados pelos recipientes da matéria negra), o robô dúbio, a criatura parasítica, a corporação impiedosa… É uma prequela, mas não é uma prequela. É uma espécie de prequela.

Afinal de contas, será que este filme precisava de estar relacionado com o Alien? Por quê aquela atitude titubeante da parte dos cérebros que pariram esta mixórdia? Prometheus não poderia ser simplesmente um filme sobre um grupo de exploradores que viajavam a um planeta distante para confrontar os nossos criadores? Não se teriam evitado várias contradições e disparates se deixassem de fora os monstros, os ricaços malévolos, e outros chavões da série original? Se não contratassem um guionista do LOST, até havia matéria-prima de sobra para fazer o tal sci-fi original e inteligente que prometeram.

Porém, o filme não foi encomendado pelo estúdio como uma iniciativa a solo, mas como parte de um franchise. O título “Alien” esteve lá desde o primeiro dia, e em termos de marketing era demasiado precioso para ser ignorado. Por isso acabamos nesta situação, com um filme totalmente diferente de Alien mas que tem de vestir a mesma pele. O próprio realizador fica confuso, como não haveremos nós de ficar?

O que foi cortado de Prometheus?

Ridley Scott: Bastante coisa. De acordo com Collider existem 20 a 30 minutos de cenas deletadas que Ridley queria incluir no lançamento do DVD. E Logan Marshall-Green também revelou para nós que o personagem dele havia sido atenuado bastante nas refilmagens. Nós estamos assumindo que 30 minutos é subestimar.

Pois, estão a ver. Venham as Ediçõe$ E$peciai$ e os Director’$ Cut. Afinal, ainda não sabemos com certeza se a Charlize Theron era um simbionte ou não.

Esperem, eu já vi esse filme. Bom, pelo menos esse não teve uma prequela estúp

Ridley Scott Weighs in on Blade Runner Project

Oh.

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Heis, gente, o nosso cinema “de ideias”, o nosso blockbuster adulto e inteligente. Ainda acham intrigante que os Engenheiros queiram liquidar-nos?

3 Responses to PROMETHEUS: O QUE IMPORTA SÃO AS PERGUNTAS (Porque as Respostas Não Existem)

  1. Tiago Alves says:

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    Partilho a tua frustração. A teoria acerca da motivação dos Engenheiros que escolhi acreditar para parar de desejar malefícios genitais ao Lindelof é que existem duas facções disputantes dos mesmos, visto que os do início – havia mais que um nessa cena antes de ser cortada HMekm.jpg
    – eram diferentes no vestir que os outros e a nave na primeira cena era diferente e estranhamente parecia mais evoluída que os donuts trincados lá mais para a frente. A ideia da disputa ser puramente extraterrestre a tal ponto de não nos ser perceptível a sua razão de existir até aceito bem, mas precisava que o filme tivesse mais recheio para colmatar esse gimmick. E os desenhos nas cavernas eram de facto um aviso para não visitarem aquele planeta, visto que o título da música da banda-sonora que passa quando a Shaw deixa o alerta para ninguém se dirigir ali no final se chama Invitation. Agora é só esperar por um Blade Runner que acaba com o Deckard a passar o Voight-Kampff e um cientista a sorrir.

  2. António says:

    Epá… Parem de bater no morto… Este ano houve bem pior do que o Prometheus. Onde é que estão os vossos rants? É porque uns filmes têm a obrigação de ser bons e o os outros não? Por favor. Todos têm obrigação de ser bons.

  3. Bernardo Vasconcelos says:

    Bom, é certo eu já vi coisas piores que Prometheus desde Janeiro. (Não muitas…) Mas não sei o que isso tem a ver com o assunto, francamente. Eu não precisaria de mudar uma linha do que escrevi se Prometheus fosse o único filme que tivesse visto no ano inteiro, nem se tivesse passado a pente fino todas as estreias recentes.

    De resto, é óbvio que as pessoas vêem cada filme com expectativas muito diferentes, seja por gosto pessoal ou pela ambição demonstrada pelos cineastas. O próprio Ridley Scott assegurou que Prometheus seria um “2001 com esteróides”, ou seja, um filme a comparar com os colossos do género, não com Battleship ou outros flatos que os estúdios vão libertando preguiçosamente.

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